Por algumas horas, Coronel José Dias transformou sua paisagem em uma passarela onde a moda carregava identidade, memória e pertencimento. Nada do que cruzou o desfile veio dos grandes centros ou da produção em série. Cada peça nasceu das mãos de artesãos que fazem da tradição parte da vida cotidiana. O cenário foi montado na cidade porta de entrada para o Parque Nacional Serra da Capivara, no Sul do Piauí, durante o lançamento do projeto.
Crochê, rechilieu, fuxico, bordados e técnicas artesanais encontraram inspiração nas cores, formas e histórias da Serra da Capivara para dar origem ao Essência da Serra, projeto de moda autoral lançado pela Prefeitura de Coronel José Dias e idealizado pela primeira-dama e secretária municipal da Mulher, Ambrenna Carvalho.
Mais do que apresentar uma coleção, a primeira edição colocou na passarela uma cadeia criativa construída dentro do próprio município. Mais de 22 artesãos participaram da produção de mais de 30 peças, todas confeccionadas à mão, transformando técnicas transmitidas entre gerações em linguagem de moda. E, se as roupas carregavam o território, quem as vestia também fazia parte dele.
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Da escola pública para a passarela
Os modelos da noite não eram profissionais. Dezesseis jovens da rede pública municipal de ensino foram escolhidos para protagonizar o primeiro desfile do Essência da Serra.
Entre eles estavam estudantes de comunidades localizadas a cerca de 80 quilômetros da sede de Coronel José Dias. Jovens que, por uma noite, ocuparam o centro de uma experiência de moda criada para mostrar que talento, beleza e pertencimento também existem longe dos circuitos tradicionais.
A escolha acrescentou uma dimensão social ao projeto. Em vez de importar rostos para apresentar uma coleção sobre o território, o Essência da Serra colocou os próprios jovens do município como representantes dessa identidade.
Na passarela, portanto, não estavam apenas roupas. Estavam artesãos, estudantes, famílias, comunidades e diferentes gerações reunidas em torno de uma mesma narrativa.

Quando o artesanal se transforma em moda
Em um momento em que a moda volta os olhos para processos manuais, rastreabilidade e identidade, o Essência da Serra parte justamente daquilo que Coronel José Dias já possui: o saber de suas próprias mãos.
Rechilieu, crochê e fuxico deixam de aparecer apenas como técnicas tradicionais e passam a ocupar o centro da criação. Cada peça preserva as pequenas diferenças do trabalho manual, aquilo que torna impossível produzir duas exatamente iguais.
São mais de 30 criações que aproximam tradição e contemporaneidade e encontram na Serra da Capivara seu principal repertório visual e afetivo.
O território, conhecido internacionalmente por seu patrimônio arqueológico, passa a ser contado também pela moda.

Uma marca que nasce com propósito
Idealizadora do projeto, Ambrenna Carvalho concebeu o Essência da Serra como uma forma de reunir moda, artesanato, cultura e geração de oportunidades.
A proposta é fazer com que o conhecimento dos artesãos locais ultrapasse os limites das comunidades onde é produzido e encontre novas possibilidades de reconhecimento e valorização.
Assim, a marca nasce menos interessada em seguir tendências passageiras e mais comprometida em revelar uma identidade que já existia antes dela. Porque talvez esteja justamente aí a força do Essência da Serra: não tentar reproduzir aquilo que já é feito nas grandes capitais da moda, mas olhar para dentro do que tem na cidade de um dos patrimônios mundiais mais reconhecidos.
Para as mãos que bordam. Para as mulheres que fazem crochê. Para o fuxico passado entre gerações. Para os jovens das escolas públicas. Para comunidades a dezenas de quilômetros do centro. Para uma paisagem que guarda milhares de anos de história.



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