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Valença do Piauí

Primeiro museu de arte santeira do Brasil preserva legado de Mestre Dezinho no Piauí

Novo espaço une memória, arte e identidade cultural em homenagem ao mestre que levou a arte santeira piauiense ao mundo

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 O museu está localizado no Centro histórico de Valença / imagens: Pedro Silva - Sempre Mais

Reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural do Brasil, a arte santeira representa um dos maiores símbolos da identidade cultural piauiense. O ofício, marcado pela habilidade de transformar madeira e outras matérias-primas em esculturas de temática religiosa, preserva tradições, saberes populares e a forte relação do povo nordestino com a religiosidade.

É nesse contexto que o legado de Mestre Dezinho ganha ainda mais destaque. Reconhecido como um dos maiores nomes da arte santeira brasileira, o artista passa a ter sua trajetória preservada no Museu Mestre Dezinho, localizado no Centro Histórico de Valença do Piauí, a cerca de 210 quilômetros de Teresina. Primeiro museu do Brasil dedicado à arte santeira, o espaço surge como um importante equipamento cultural voltado à valorização da arte sacra, da cultura popular e da identidade nordestina.

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Em entrevista ao Portal Coluna Sempre Mais, Kássio Gomes, idealizador do projeto, destacou a importância do museu para a valorização da arte santeira no Piauí e ressaltou o orgulho de transformar o antigo Bar Glória no primeiro museu de Arte Santeira do Brasil, dedicado à preservação do legado de Mestre Dezinho e de outros mestres talhadores piauienses.

“Estamos muito orgulhosos e felizes, pois entregamos não só para Valença, mas também para toda a população do Piauí, o primeiro museu de Arte Santeira do Brasil, referenciando um grande mestre da arte santeira, que hoje é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. O Piauí passa a ter mais um patrimônio de destaque nacional, ao lado da cajuína. E tudo isso dentro dessa estrutura histórica do antigo Bar Glória, que foi transformada nesse grande museu”, destacou Kássio Gomes.

Kássio Gomes, idealizador do museu Mestre Dezinho / imagem: Pedro Silva - Sempre Mais

A ideia do museu surgiu durante o projeto de requalificação do Centro Histórico de Valença do Piauí, quando Kássio Gomes compartilhou com o deputado estadual Fábio Novo o desejo de criar um espaço dedicado a Mestre Dezinho em sua cidade natal. Com apoio da família do artista, o projeto reuniu obras e objetos pessoais do escultor e foi ampliado para incluir trabalhos de cerca de 60 mestres santeiros do Piauí.

Espaços unem memória, arte e imersão cultural

O museu foi estruturado para se tornar referência na valorização da arte santeira piauiense e reúne auditório, galerias expositivas, terraço, áreas de convivência e salas dedicadas à memória de importantes mestres da cultura popular, como Mestre Dezinho e Mestre Dico. O espaço também contará com ambientes voltados para exposições temporárias, debates, pequenas reuniões, um café na área externa, além de futuramente contar com uma loja para vender arte santeira e produtos piauienses.

O percurso expositivo conduz o visitante por uma imersão na história da arte santeira do Piauí. “O visitante inicia e encerra o percurso com Mestre Dezinho. O museu conta com salas dedicadas ao artista, exposições temporárias e galerias que apresentam a trajetória da arte santeira no Piauí, desde Sebastião Mendes, considerado o primeiro talhador do estado, até importantes mestres santeiros piauienses. O espaço também reúne ambientes temáticos inspirados nos sertões, romarias, santos e na religiosidade popular, proporcionando uma imersão na cultura e na arte santeira do Piauí”.

Fortalecendo o turismo cultural e valorização da identidade

A inauguração do Museu Mestre Dezinho representa um marco cultural para Valença do Piauí, fortalecendo o turismo, valorizando a identidade local e ampliando as opções de visitação na cidade, especialmente durante eventos tradicionais, como a Festa do Divino. Além de preservar a memória da arte santeira piauiense, o espaço coloca Valença no circuito cultural e museológico do estado, reforçando sua importância histórica e artística.

Segundo Kássio Gomes, a criação do museu também nasce do desejo de aproximar os valencianos da grandiosidade da trajetória de Mestre Dezinho. “A idealização disso tudo é para que os valencianos tomem consciência do grau de representatividade que o Mestre Dezinho teve não só no Brasil. Ele foi o único artista santeiro que conseguiu chegar a todos os continentes com sua arte e, muitas vezes, Valença ainda não conhece essa dimensão”, destacou.

Legado de persistência e valorização da arte santeira

Obras de Mestre Dezinho / imagem: Pedro Silva - Sempre Mai

Kássio Gomes destacou que a trajetória de Mestre Dezinho simboliza resistência, sensibilidade artística e superação, desde os primeiros trabalhos como carpinteiro em Valença do Piauí até o reconhecimento nacional como um dos maiores nomes da arte santeira brasileira. Segundo ele, o artista começou produzindo móveis e peças em madeira, passando depois à criação de ex-votos, até ter o talento percebido por lideranças religiosas que incentivaram suas primeiras obras sacras em Teresina.

Ele também antecipou que um dos próximos objetivos do espaço é criar uma escola de talhadores, voltada à formação de novas gerações de artistas e à preservação da tradição da arte santeira no Piauí. “Queremos incentivar novos talentos e mostrar que é possível viver da arte, assim como Mestre Dezinho mostrou ao longo da vida”, destacou.

Visitação

O Museu Mestre Dezinho funcionará de terça a domingo, em alinhamento com a Secretaria de Estado da Cultura do Piauí e a Agência de Desenvolvimento Econômico do Piauí. A proposta é fortalecer o turismo cultural em Valença do Piauí e ampliar o acesso da população e dos visitantes ao patrimônio artístico e histórico do estado.

O espaço ficará aberto de terça a sábado até às 17h e, aos domingos, até o meio-dia. Segundo Kássio Gomes, a expectativa é que o museu contribua para recolocar Valença do Piauí em destaque no cenário cultural nacional, valorizando a arte e os talentos piauienses.

O antigo Bar Glória

Construído na década de 1940, o antigo Bar Glória marcou gerações em Valença do Piauí como um dos principais pontos de encontro da cidade. Localizado na Rua Norberto de Castro, o espaço funcionou inicialmente como bar e, ao longo dos anos, ganhou restaurante, salão de jogos, serviço de alto-falante, pista de dança e até bomba de gasolina, tornando-se parada tradicional de viajantes e referência de lazer e convivência social para os valencianos. Frequentado por diferentes gerações, o local ficou conhecido pelas rodas de conversa, encontros culturais e pela movimentação da juventude nas décadas seguintes. Após anos em situação de abandono, o prédio foi revitalizado pelo Governo do Estado e transformado no Museu Mestre Dezinho, integrando o processo de recuperação dos casarões históricos do entorno da Praça José Martins.

Reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil

A Arte Santeira em Madeira do Piauí foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil durante a 106ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. O reconhecimento incluiu, pela primeira vez no país, o registro simultâneo de um bem imaterial e o tombamento de uma edificação ligada diretamente à manifestação cultural: a Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Vermelha, em Teresina. A arte santeira piauiense, que utiliza a madeira como matéria-prima para esculturas inspiradas na religiosidade popular, natureza e cotidiano do povo nordestino, surgiu no estado na década de 1970 e hoje reúne cerca de 50 mestres santeiros em atividade. O reconhecimento garante ações de preservação, valorização e fortalecimento dessa tradição cultural, considerada uma das mais importantes expressões artísticas do Piauí.

Museu Mestre Dezinho fortalece preservação da arte santeira no Piauí

Implantado em Valença do Piauí, o Museu Mestre Dezinho foi criado a partir da reforma, modernização e adequação de um prédio histórico para abrigar um espaço dedicado à preservação da memória e valorização da cultura regional. A obra, executada pela Secretaria da Cultura do Piauí, recebeu investimento de R$ 560 mil, sendo R$ 330 mil destinados à reforma da edificação e R$ 230 mil para implantação da museografia. Os recursos foram viabilizados por meio do Sistema de Incentivo Estadual à Cultura (SIEC), com patrocínio do Armazém Paraíba.

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