Ao longo de seis décadas, Nonato Oliveira transformou em arte aquilo que conhecia profundamente: as paisagens do Piauí, a cultura popular, a fé, as festas, os personagens e as cenas que atravessam a memória de gerações. Pintor, muralista e escultor, construiu uma trajetória marcada por cores, formas e uma linguagem visual que ajudou a consolidar referências da identidade cultural piauiense.
Suas obras estão presentes em espaços públicos e coleções no Brasil e em países como Portugal, Itália e Estados Unidos. Agora, parte dessa trajetória é revisitada em uma exposição especial em Teresina, com uma particularidade: a curadoria foi realizada por três de seus filhos.
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A escolha acrescenta uma perspectiva singular à mostra. Para além do reconhecimento público e da dimensão artística de sua obra, os curadores conhecem Nonato também pela convivência familiar, acompanhando de perto diferentes momentos de sua vida e de sua produção. Entre milhares de trabalhos, cerca de 4.500, segundo o filho e curador Sérgio Donato, o desafio foi selecionar obras capazes de contar essa trajetória sob um olhar que combina memória afetiva e leitura artística.
Em entrevista ao portal Coluna Sempre Mais, Nonato Oliveira revisitou as origens de sua trajetória, falou sobre as referências que moldaram seu olhar e revelou como a cultura piauiense permanece no centro de sua produção.
A relação de Nonato com a arte começou ainda na infância, em São Miguel do Tapuio. Aos dez anos, o contato com as pinturas rupestres encontradas na região despertou seu interesse pelo desenho e se tornou uma das primeiras referências de sua formação artística.
“Eu comecei a desenhar com 10 anos em São Miguel do Tapuio vendo as pinturas rupestres dos índios Tapuio que faziam nas roças. Meu grande professor foram os primeiros homens brasileiros, os índios", relembra o artista.
Ao longo da carreira, as referências da infância deram lugar a uma produção profundamente conectada ao território. A cultura popular, a religiosidade, o folclore e as pessoas do Piauí passaram a ocupar um espaço central em seu trabalho.
“A beleza e a cultura do povo piauiense, o folclore, a cultura popular, a religião do povo do Piauí e a beleza da mulher. Penso na felicidade, a beleza e no amor do povo piauiense", descreve Nonato Oliveira as inpiraões para as obras.
Seis décadas em perspectiva
É a partir desse universo que a exposição “Nonato Oliveira: 60 Anos de Cores e Memórias” apresenta diferentes momentos da trajetória do artista. A seleção reúne obras de distintas fases, permitindo acompanhar como sua produção se transformou ao longo das décadas sem perder elementos que se tornaram marcas de sua identidade artística. Entre os trabalhos apresentados, estão obras que ajudam a revelar tanto períodos históricos de sua produção quanto criações mais recentes.
Para Sérgio Donato, filho de Nonato e um dos responsáveis pela curadoria, a proposta foi justamente identificar essas diferentes fases e colocá-las em diálogo.
“Buscamos identificar as fases estéticas do Nonato. Tem desde o abstratismo rural até as formas mais contemporâneas, como uma obra que temos que foi feita há três meses. Identificamos essas fases e buscamos trazer uma obra de cada fase. E é bem fácil de identificar quando você anda pela exposição: as fases dos anos 60, 70, 80. São fases diferentes, mas todas trazem aquele traço primordial dele, que é o contorno ao redor da obra, o olho azul", ressata Sérgio Donato, curador da exposição
Um legado em movimento
Aos 60 anos de carreira, Nonato Oliveira segue transformando referências do Piauí em cores, formas e personagens. Uma trajetória que atravessa gerações e mantém a cultura piauiense como uma de suas principais fontes de criação.
A exposição “Nonato Oliveira: 60 Anos de Cores e Memórias” fica aberta ao público até 20 de agosto, no Sesc Cajuína, no bairro Noivos, em Teresina.
Nonato Oliveira, o artista
Nascido em 11 de dezembro de 1949, na zona rural de São Miguel do Tapuio, no Piauí, Raimundo Nonato Oliveira descobriu ainda na infância que a natureza também podia ser tinta. Entre sementes, cascas de árvores e folhas de urucum, angico e nogueira, deu os primeiros traços de uma trajetória que transformaria a memória do sertão em arte. Em suas telas, o Nordeste ganha vida em cores intensas, onde bumba meu boi, reisado, bandeiras, violas, zabumbas, cajus, mandacarus e o povo se tornam protagonistas de uma narrativa visual repleta de identidade e afeto.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Nonato Oliveira levou a força da cultura nordestina para murais, galerias e museus no Brasil e no exterior. Suas obras, presentes em espaços públicos e coleções de países como Portugal, Itália e Estados Unidos, eternizam um Nordeste que pulsa em cada pincelada, preservando histórias, tradições e a beleza de um povo que faz da arte a própria memória.
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