A data que para muitos representa receber homenagens e presentes ganhou um novo significado para Lanna Lorenna. Safety de aviação, profissional responsável por acompanhar a segurança operacional das aeronaves durante todo o processo de embarque até o pouso, ela transformou o próprio aniversário em um movimento de doação de sangue após uma experiência que marcou sua infância.
Ao portal Coluna Sempre Mais, Lanna conta que aos 12 anos, viveu uma situação que mudaria sua relação com a vida. Sua mãe passou por uma emergência médica e só sobreviveu, segundo os médicos, graças ao atendimento rápido e às bolsas de sangue recebidas durante o tratamento.
>>> Siga o canal do portal Coluna Sempre Mais no WhatsApp
A experiência despertou nela uma promessa: um dia, quando tivesse idade e condições, também ajudaria a salvar a vida de outras pessoas. “Quando eu tinha 12 anos, presenciei o momento mais marcante da minha vida. Minha mãe sentia muitas dores, tanta dor que chegou a perder os sentidos. Liguei para minha avó e para o atendimento de emergência. Meu tio chegou junto com a ambulância e levou minha mãe desacordada nos braços. Eu fiquei sozinha em casa durante toda a noite, sem saber se ela estava viva ou morta. No dia seguinte, quando fui me encontrar com ela, lembro de ouvir o médico dizendo que ela havia sobrevivido graças ao pronto atendimento e às bolsas de sangue que recebeu. Aquilo me marcou profundamente. Perguntei como funcionava a doação de sangue e fiz uma promessa: quando eu pudesse, também salvaria a mãe de alguém”, relembra.

O primeiro passo veio no aniversário de 18 anos. A intenção era doar sangue como forma de comemoração, mas uma surpresa mudou os planos: apesar de já ter idade suficiente, Lanna não atingia o peso mínimo exigido para a doação. Foi nesse momento que nasceu a ideia que se tornaria uma tradição.
“No dia do meu aniversário de 18 anos, pedi para um amigo me acompanhar até o Hemopi. Quando cheguei à triagem, descobri que não poderia doar por causa do baixo peso. Eu tinha a idade, mas não tinha o peso ideal. Então pensei em pedir para meu amigo doar em meu lugar. Ele aceitou e foi ali que tudo começou. No ano seguinte eu ainda não tinha alcançado o peso necessário, mas pedi para ele e para outros amigos doarem sangue como presente de aniversário. Desde então, isso virou uma tradição para mim.”
Um aniversário com propósito
Ao longo dos anos, o gesto deixou de ser apenas uma iniciativa pessoal e passou a representar uma nova forma de celebrar a própria vida. “Meu aniversário passou a ter um significado diferente. Ele tem propósito. Enquanto muitas pessoas comemoram recebendo presentes, eu percebi que a maior celebração para mim era agradecer pela vida da minha mãe. Cada bolsa de sangue doada representa a oportunidade de outra família continuar completa, assim como a minha teve essa oportunidade anos atrás. Transformar meu aniversário em uma campanha é a forma mais sincera que encontrei de celebrar a vida: ajudando a salvar outras.”
.jpeg)
Quando o presente deixou de ser material
Ao convidar amigos e familiares para participar da campanha, Lanna encontrou uma reação inicial de surpresa. Afinal, o pedido era diferente do tradicional: em vez de um presente, ela pedia solidariedade.
“No começo, muitos ficaram surpresos. Ninguém espera receber um convite para doar sangue em vez de levar um presente. Mas quando conhecem a história por trás do pedido, a reação muda completamente. Muitos se emocionam, aceitam participar e ainda levam outras pessoas. Com o tempo, a campanha deixou de ser apenas minha e passou a ser de todos que abraçaram essa causa. Hoje, quando o mês se aproxima, começo a receber mensagens perguntando: ‘Esse ano vai ter campanha?’. Isso me ajuda muito a continuar todos os anos", conta.
.jpeg)
Da promessa de infância para uma corrente que cresce todos os anos
O que começou como um gesto simbólico de uma criança se transformou, ao longo dos anos, em uma mobilização capaz de envolver dezenas de pessoas e despertar novos doadores. Para Lanna, o verdadeiro impacto da campanha de aniversário não está apenas nos números alcançados, mas nas histórias de transformação que nasceram a partir dela.
“Mais do que contar números, o que mais me emociona é saber que, a cada edição, novas pessoas descobrem a importância da doação de sangue e muitas continuam doando mesmo depois do meu aniversário. Eu não sei dizer quantas pessoas já participaram no total, mas em 2023 tivemos um recorde: foram 72 doações somente no dia oficial da campanha. Claro que toda participação é motivo de alegria, mas o maior resultado foi perceber que uma promessa de infância conseguiu criar uma corrente do bem que continua crescendo. Superou qualquer coisa que eu poderia imaginar, porque deixou de ser apenas uma campanha de aniversário e se tornou um movimento de conscientização.”
O impacto da iniciativa também levou Lanna a compartilhar sua história em outros espaços. Durante os meses de junho e julho, ela passou a ser convidada por empresas para falar sobre sua trajetória e incentivar novos doadores.
.jpeg)
Uma mensagem que ultrapassa o próprio aniversário
Para Lanna, a maior transformação está em mostrar que experiências difíceis também podem gerar novos caminhos. “Quero mostrar que qualquer pessoa pode transformar uma experiência difícil em esperança para outras pessoas. A doação de sangue é um gesto simples, gratuito e que pode ser a diferença entre a vida e a morte de alguém. Muitas vezes, nós não conseguimos resolver todos os problemas do mundo, mas podemos fazer diferença na história de uma pessoa. E isso já é enorme. Uma única pessoa que doa pode ajudar a salvar até quatro vidas, e isso é muita coisa.”
De todas as histórias construídas por meio da campanha, uma permanece como símbolo da força que um gesto individual pode alcançar: a mobilização durante a pandemia. Em um dos períodos mais desafiadores da saúde pública, Lanna transformou uma ação de solidariedade em uma corrente capaz de reunir mais de 50 pessoas em um único sábado no Hemopi.

“O momento mais emocionante aconteceu durante a pandemia, quando, mesmo com tantas restrições e medo, conseguimos reunir mais de 50 pessoas em um sábado para doar sangue no Hemopi. Aquilo mostrou que a solidariedade também é contagiante. Ela acontece quando alguém que eu nunca vi na vida aparece sozinho para doar porque viu um amigo compartilhando a campanha. Acontece quando alguém que não pode doar mobiliza outras pessoas para irem no seu lugar. E se repete quando escuto alguém dizer: ‘Eu nunca tinha doado sangue, vim por causa da sua história e agora quero me tornar um doador frequente’.”
Quando uma história inspira outras histórias
Entre as pessoas que passaram a fazer parte dessa rede está o psicólogo hospitalar Kaio Gonçalves, amigo de Lanna e participante de algumas edições da campanha. Além de compreender diariamente, pela profissão, a importância da doação de sangue, Kaio encontrou na iniciativa dela uma forma concreta de transformar solidariedade em atitude.
.jpeg)
Kaio Gonçalves e Lanna Lorena / imagem: arquivo pessoal
“Desde que conheci essa iniciativa tão bonita que ela realiza todos os anos, comemorando o aniversário no Hemocentro e incentivando as pessoas a presenteá-la com a doação de sangue, passei a participar dessa corrente de solidariedade. É uma forma simples, mas extremamente significativa, de contribuir para que outras pessoas tenham uma nova oportunidade de vida.”
Para Kaio, iniciativas como a de Lanna têm um papel fundamental na conscientização porque aproximam as pessoas de uma causa que muitas vezes parece distante.
“Transformar uma comemoração de aniversário em um convite à doação de sangue é uma maneira muito sensível e eficiente de conscientizar as pessoas. Campanhas como essa mobilizam familiares, amigos e toda a comunidade. Além de divulgar a importância da doação, elas despertam nas pessoas a vontade de agir e perceber que um gesto simples pode salvar muitas vidas. No primeiro ano, fui sozinho fazer a doação. Hoje, faço questão de convidar amigos e amigas para participarem comigo, ampliando ainda mais essa corrente de solidariedade", fala.
A história da amiga inspirou o amigo a doar e convidar pessoas para o ato / imagem: arquivo pessoal
Para Kaio, trocar presentes por solidariedade transforma completamente o significado de uma comemoração. “Quando escolhemos transformar uma data tão significativa em uma oportunidade de fazer o bem, o aniversário ganha um propósito ainda maior. Em vez de receber presentes materiais, recebemos a certeza de que vidas podem ser impactadas positivamente. É uma forma muito bonita de celebrar a vida, compartilhando esperança, cuidado e solidariedade com quem mais precisa".
.jpeg)
Como doar sangue
Quem pode doar:
- Ter entre 16 e 69 anos (menores de 18 com autorização formal dos responsáveis);
- Pesar no mínimo 50 kg;
- Estar em boas condições de saúde;
- Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas;
- Estar alimentado (evitar alimentos gordurosos antes da doação);
- Apresentar documento oficial com foto.
Cuidados após a doação:
- Evitar esforço físico intenso por 12 horas;
- Aumentar a ingestão de líquidos;
- Não consumir bebida alcoólica por 12 horas;
- Manter o curativo por pelo menos 4 horas.
Hemocentros regionais
Nos hemocentros regionais de Parnaíba, Picos e Floriano, o atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h15 às 18h, e aos sábados e feriados até às 17h. O horário segue o mesmo padrão adotado na capital, garantindo maior organização e acesso para os doadores em todo o estado.



Comentários (0)
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Comentar