O hábito de consumir doces na infância pode ir além de uma simples preferência alimentar. Em alguns casos, tende a revelar como a criança está lidando com as próprias emoções e também traz impactos diretos para a saúde bucal. Nesse cenário, uma pergunta se sobressai: criança que pede doce o tempo todo está ansiosa? A resposta é: nem sempre. Embora o consumo exagerado de açúcar possa estar ligado a questões emocionais, especialistas alertam que é preciso olhar para o comportamento infantil com cuidado e sem conclusões precipitadas.
Segundo a psicóloga Kalina Galvão, docente do Unifacid Wyden, a preferência por alimentos doces faz parte do desenvolvimento da criança. O cérebro infantil está em formação e, biologicamente, tende a buscar sabores mais adocicados e alimentos mais energéticos. “O açúcar ativa o sistema de recompensa cerebral, ligado à sensação de prazer, bem-estar e felicidade. Em momentos de estresse, frustração ou ansiedade, a criança pode buscar esse alívio rápido nos doces”, explica. O problema surge quando esse consumo deixa de acontecer apenas pelo sabor e passa a funcionar como uma espécie de “válvula de escape” emocional. Nesses casos, o doce pode se transformar em uma estratégia de compensação: sempre que a criança se sente triste, nervosa, frustrada ou insegura, procura alimentos ricos em açúcar para se sentir melhor.
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Por isso, além de controlar a quantidade de açúcar, é importante observar o padrão de consumo: quando, como e por que a criança está comendo. “Não é só sobre o quanto ela come, mas em quais situações. Se o doce aparece sempre depois de momentos difíceis, isso merece atenção”, reforça Kalina. Para reduzir esse ciclo, a orientação começa dentro de casa. Uma rotina previsível com horários definidos para alimentação, sono e atividades ajuda a diminuir a ansiedade e, consequentemente, a busca por recompensas imediatas. Além disso, conversar sobre sentimentos faz diferença no desenvolvimento emocional. Frases simples, como “isso te deixou chateado?” ou “você ficou preocupado?”, ajudam a criança a reconhecer o que está sentindo sem precisar recorrer à comida.
Consumo excessivo de doces impacta saúde bucal das crianças
Para além dos impactos emocionais, o excesso de doces também traz consequências diretas para a saúde bucal. De acordo com Daniela Nunes, professora de Odontologia do Unifacid Wyden, a Organização Mundial da Saúde recomenda que o açúcar só seja introduzido na alimentação após os dois anos de idade. “O contato precoce com a sacarose favorece a formação de um paladar cada vez mais dependente do doce e aumenta o risco de cáries, obesidade e outras doenças”, explica.
Por isso, a orientação é simples: priorizar alimentos naturais e criar o hábito de descascar mais e desembalar menos. Quanto mais tarde a criança tiver contato com o açúcar, menores são as chances de desenvolver problemas. A especialista também destaca que a rotina de higiene bucal deve começar cedo e, de preferência, ser construída de forma leve e divertida. “Quando a escovação faz parte do dia a dia da família, a criança tende a repetir esse comportamento. O exemplo dos pais é fundamental”, afirma. Ela acrescenta que visitas regulares ao dentista, a cada seis meses, também ajudam a prevenir problemas. Isso porque, quando a cárie é identificada ainda no início, o tratamento costuma ser mais simples, menos invasivo e com menos consequências para a criança.
No fim das contas, o doce não é o vilão absoluto. O alerta está no excesso e, principalmente, no que esse comportamento tenta comunicar. Em muitos casos, o pedido insistente por açúcar pode ser menos sobre fome e mais sobre emoções que a criança ainda não sabe explicar.



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