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Emergência radioativa

Caso Césio-137 volta ao debate com série da Netflix e memória de protesto em Valença do Piauí

Historiador Antônio José Mambenga relembra como a população de Valença se mobilizou contra o destino de lixo radioativo

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 Valença se mobilizou contra o risco de rejeitos radioativos / imagem: Pedro Fotógrafo – Acervo do Prof. Antônio José Mambenga

A Netflix lançou neste mês a minissérie nacional Emergência Radioativa, inspirada no acidente com Césio-137 em Goiânia, em 1987, um dos maiores desastres radiológicos fora de usinas nucleares no mundo. Protagonizada por Johnny Massaro e Paulo Gorgulho, a produção retrata um cenário de tensão e incerteza em um período em que ainda não se compreendia plenamente a gravidade da contaminação.

A tragédia começou quando uma cápsula de radioterapia foi aberta em um ferro-velho, liberando o Césio-137, um material radioativo que emitia brilho azulado no escuro. Sem conhecer os riscos, moradores manipularam a substância, espalhando a contaminação e dando início a uma corrida contra o tempo para conter os danos e atender as vítimas.

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O brilho incomum do material e a falta de informação fizeram com que ele fosse visto como inofensivo, o que ampliou a contaminação e atingiu centenas de pessoas, resultando em quatro mortes. Diante da crise, surgiu o desafio de dar destino seguro aos rejeitos radioativos, que foram levados para um depósito em Abadia de Goiás, onde permanecem sob monitoramento por cerca de 180 anos, somando aproximadamente seis mil toneladas armazenadas em estruturas reforçadas, segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear.

"Emergência Radioativa", série sobre o Césio-137 / imagem: Reprodução - Netflix

Antes da definição do local definitivo, no entanto, houve a possibilidade de redistribuição desses rejeitos para outras regiões do país. Nesse contexto, a exibição da minissérie também resgata um episódio pouco lembrado: Valença do Piauí, localizada a 209 quilômetros de Teresina, esteve entre os municípios cogitados para receber parte do material contaminado. A possibilidade gerou forte reação popular, refletindo o impacto social e político do desastre em diferentes partes do país.

Protesto histórico

Em entrevista ao portal Coluna Sempre Mais, o professor e historiador Antônio José Mambenga relembra o episódio. Com exclusividade, ele também cedeu fotos do período que ilustram a matéria. As imagens são de Pedro Fotógrafo e integram seu acervo pessoal.

“Valença inteira participou de uma grande concentração na Praça Getúlio Vargas. Havia discursos, faixas de tecido, placas de isopor e cartazes feitos em cartolina com pincel atômico. Muitos traziam o símbolo da radiação, além de imagens como tambores e caveiras. O prefeito da época, Joaquim Lima Verde, apoiou o movimento”, lembra o historiador.

Professor e historiador Antônio José / imagem: arquivo pessoal

Apreensiva diante da possibilidade de receber rejeitos radioativos, a população de Valença foi às ruas em um grande ato de mobilização, marcado por protestos e pelo canto do Hino Nacional.

“No Colégio Santo Antônio, nos mobilizamos junto com professores como Damásio, Pereira, Augusto Miranda, Evandro Veloso e Moura. Foram produzidos panfletos em papel A4 para convocar a população. O clima era de angústia, e o objetivo era manter Valença distante desse lixo atômico. Durante a caminhada, próximo ao Banco do Nordeste, a população se ajoelhou e cantou o Hino Nacional. O Governo do Estado também se posicionou, assim como o deputado federal Heráclito Fortes, que apoiou a causa”,  recordou Antônio José.

A repercussão ganhou grandes proporções, mobilizando inclusive a imprensa. “A imprensa estadual também teve papel importante na divulgação. Foi um dos sábados mais marcantes que já vivi em Valença. Muitos protestavam conscientes dos riscos, enquanto outros, mesmo sem pleno entendimento, aderiram ao movimento. As escolas que mais mobilizaram alunos foram o Santo Antônio e o Maria Antonieta. Eu estava no meio, ajudando a organizar e conduzir aquela mobilização intensa.”

Mobilização nas ruas de Valença / imagem: Pedro Fotógrafo – Acervo do Prof. Antônio José Mambenga

Segundo o professor e historiador Antônio José Mambenga, asáreas cogitadas para receber os rejeitos ficariam na zona rural de Valença do Piauí, em regiões como a Serra do Batista e a localidade Tanques, ambas com presença de cavernas.

Consequências do desastre

Cena da série 'Emergência Radioativa' (Netflix - 2026) / imagem: divulgação

O número oficial de mortos devido à contaminação, segundo a Secretaria de Saúde do Estado de Goiás, foi de quatro pessoas, entre elas Devair, sua mulher, Maria Gabriela, e a filha do casal, Leide das Neves Ferreira, de seis anos. No ano seguinte, foi criado o Centro de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves Ferreira, para atender as vítimas do acidente.

O material contaminado foi enterrado em um depósito na cidade de Abadia de Goiás, onde permanecerá por 180 anos. São cerca de seis mil toneladas de lixo contaminado, de acordo com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Esse material está acondicionado em 1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêineres revestidos com concreto e aço.

Por: Especial portal Coluna Sempre Mais

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