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Mais uma Página: Desligue a tela, abra um livro: Fahrenheit 451 e a distopia do hoje

O que acontece quando as telas começam a substituir os livros?

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 imagens: divulgação

Em um mundo cada vez mais dominado por notificações, vídeos curtos e feeds infinitos, o prazer de mergulhar em uma boa leitura parece estar ficando em segundo plano. Essa tendência não é apenas uma sensação: pesquisas mostram que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode reduzir o engajamento com textos impressos e prejudicar a capacidade de concentração necessária para a leitura profunda.

A distopia de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, nos trouxe um alerta em 1953, mais de 70 anos atrás. No romance, os bombeiros não apagam incêndios: eles queimam livros. Em uma das passagens mais famosas, a personagem Beatty afirma:

“Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura. Basta fazer as pessoas pararem de lê-los.”

Esse cenário fictício espelha, em certa medida, o que vivemos hoje: sem chamas visíveis, mas diante de telas cada vez mais atraentes, corremos o risco de deixar de ler por prazer.

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Nesse sentido, estudos educacionais reforçam ainda a importância da leitura para a compreensão textual e o enriquecimento do vocabulário, competências fundamentais para o desenvolvimento cognitivo. A obra de Isabel Solé (1998), Estratégias de leitura, amplamente utilizada em contextos educacionais no Brasil, enfatiza a leitura como processo ativo de construção de sentido.

O ato de ler envolve diferentes atores, em que os protagonistas são tanto os leitores quanto os mediadores, na busca da construção de sentidos por meio dos conhecimentos prévios que possuem e através de práticas leitoras educativas que, quando bem direcionadas, possibilitam liberdade e autonomia.

No universo de Fahrenheit 451, o protagonista Montag, antes feliz em cumprir seu papel de censor, descobre nos livros “algo que você não pode imaginar, algo pelo qual uma mulher ficaria dentro de uma casa em chamas” – a força transformadora da palavra escrita. Esse “algo” que nos faz embarcar em mundos imaginários, refletir sobre nós mesmos e dialogar com autores do passado corre perigo se substituído por estímulos instantâneos e descartáveis.

Mas nem tudo está perdido. Escolas, bibliotecas e famílias começam a resgatar projetos de leitura que combinam o uso consciente da tecnologia com momentos offline. Clubes de leitura presenciais, desafios de leitura em casa e espaços de mediação literária incentivam uma relação mais equilibrada: telas para acessar informações, livros para aprofundar experiências.

Talvez o maior ensinamento de Fahrenheit 451 seja este: não é a queima de páginas que nos ameaça, mas o apagão da nossa curiosidade. Reservar um tempo diário para a leitura, longe das distrações digitais, é um ato de resistência. E, ao folhear uma página após a outra, reencontramos não só o prazer de ler, mas também a nossa própria humanidade.

“Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? [...] Ouvi rumores sobre ódio, também, esporadicamente ao longo dos anos. Você sabe por quê? Eu não, com certeza que não! Talvez os livros possam nos tirar um pouco dessas trevas. Ao menos poderiam nos impedir de cometer os mesmos malditos erros malucos!”

(Ray Bradbury, Fahrenheit 451)
 

Mais uma Página

Semanalmente, o 'Mais uma Página', apresenta indicações de novos livros, recordar clássicos, descobrir tendências, revirar curiosidades literárias e muito mais.

Conteúdo assinado por Arysa Cabral

Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Mestra em Biblioteconomia pelo Programa de Pós-graduação em Biblioteconomia - Mestrado Profissional (PPGB/UFCA). Pós-graduanda em História, Cultura e Literatura Afro-Brasileira e Indígena pela UniCesumar. Atualmente é professora do Curso de Biblioteconomia do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual do Piauí (CCSA/UESPI). Pesquisadora de temas como: biblioterapia, literatura, leitura e formação de leitores.

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