O portal Coluna Sempre Mais lança o espaço ‘Sopro de Ideias’, um ambiente de diálogo entre subjetividade e objetividade, voltado à reflexão sobre temas que atravessam o cotidiano acadêmico, cultural e social.
Assinado por Yomara Caetano, o espaço propõe discutir não apenas metodologias e conteúdos científicos, mas também os comportamentos, as relações humanas e os impactos das tecnologias no modo como produzimos conhecimento.
Ao integrar memória, sensibilidade e análise, ‘Sopro de Ideias’ convida à construção de um pensamento mais atento ao tempo, à escuta e à ética, especialmente no contexto da formação de pesquisadores no Ensino de História.
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‘A escrita à lápis como faca, (paráfrase, do livro “A escrita como faca e outros textos”, de Annie Ernaux)’.
Iniciei uma conversa com a estudante, em uma das primeiras orientações que fiz com objetivo de falar sobre como se faz uma pesquisa no campo do Ensino de História. Eu e ela, estávamos sentadas numa mesa, dentro da universidade, quando pegamos caderno, lápis para anotar tarefas. Eu pensei: - como formar uma pesquisadora no Piauí? Pergunta nada simplista. Primeiro a resposta lógica seria que uma pesquisa científica é a construção de múltiplas dimensões, tais quando: há respeito das regras típicas das ciências humanas, há projeto previamente delineado, há controle realizado pelos pares, há busca da verdade por meio das fontes, dados e fatos sociais em relação a teoria científica. Resolvido em parte, pois há algo não dito, habitado no diálogo do fazer de cada orientadora, digno da demanda das relações humanas entre gerações.
Começo essa Coluna pela descrição da imagem acima e por duas memórias ditas a seguir.
Quando, eu e a estudante, pegamos lápis e caderno, veio à memória da minha leitura do livro de Annie Ernaux, “A escrita como faca e outros textos”, realizada em 2023, neste a autora premida com Nobel de literatura um ano antes, respondeu uma entrevista mostrando como no seu relato pessoal há uma questão social e corporal do eu coletivo, refletindo sobre o ato da sua própria escrita.
Essa memória da leitura, se juntou a outra memória advinda de uma orientação recebida, em meados de 2003. Nesta segunda, a orientadora me disse pensar melhor com o lápis em mão, pois as ideias iam correndo sem medo de serem provisórias e reelaboradas, no uso do lápis no papel aceitam-se palavras escritas diante do falado, e, para tanto, citou o filme “Os narradores de Javé”, como inspiração nos dilemas da oralidade entre gerações e a problema de como conservar a memória e a História de um grupo social, roteirizado neste filme.
Essas duas memórias direcionaram a minha orientação diante do papel em branco com o lápis na mão, mesmo tendo disponíveis computadores, internet rápida, e aplicativos como o ChatGPT, ao nosso dispor dentro ou fora da universidade.
Expliquei que realizar uma boa pesquisa exige-se uma escrita feita à mão, pois leva-se tempo de reflexão, como no esforço de usar o lápis para escrever, dá trabalho e suor escrever à lápis, precisa-se usar o lápis com demora de uma escuta atenta. Outras, muitas vezes, usa-se a escrita à lápis como corte igual à uma faca. Na pesquisa realizamos um corte que significa dar limite à escrita na pesquisa. É usando uma escrita à lápis servindo de faca na sua pesquisa, que permitimos a relação entre a objetividade e subjetividade da pesquisadora com a pesquisa. A escrita à lápis na função de faca, dando o limite e o corte é o objetivo da pesquisa. E, usar o lápis para escrever está ligado ao esforço de escuta e suor dado pela subjetividade da pesquisadora.
Uma vez escolhidos os objetivos de pesquisa, essa tem o limite dado pela corte à faca aliada ao exercício da escrita à lápis, que reconhece o esforço e suor da subjetividade da pesquisadora. No seu ofício de pesquisadora a escrita à lápis pode abrir novos futuros para o leitor pensar a construção do inédito subjetivo dado pela pesquisadora, mesmo dentro do limite objetivos de uma pesquisa no Ensino de História.
Ao explicar para a estudante, por meio da metáfora “Escrita à lápis como faca” como pensar os limites objetivos da pesquisa sem retirar o que existe de subjetividade da pesquisadora, dentro da pesquisa no Ensino de História realizei o diálogo complexo entre as gerações, entre orientadora e orientanda.
A final da escrita dessa Coluna pensei na frase: a ciência é uma possibilidade da compreensão do mundo controlada pela escrita à lápis como faca.

Sobre Yomara Caetano
Graduada em Direito e História, estudo cinema e psicanálise. Doutora em História do Tempo Presente (UDESC, 2018). Desde 2024, estou como professora na Universidade do Estado do Piauí (UESPI), no campo do Ensino de História, realizado o recente pós-doutorado no Projeto em rede "História de vidas e Memórias de Professoras/es do campo do Ensino de História", contou com apoio da agência de fomento FAPESC. Explico! Essa informação é importante na liberação de recursos. Com interesse na aproximação da universidade com a comunidade uso essa Coluna para divulgação científica.
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