Oferecer uma garrafa de cajuína a uma visita é mais do que um gesto de hospitalidade. É uma forma de compartilhar identidade, tradição e pertencimento. Produzida a partir do suco clarificado do caju, a bebida símbolo do Piauí carrega séculos de história e um saber transmitido entre gerações, preservando modos de fazer que se tornaram parte da cultura piauiense. Em sua trajetória, a cajuína também reflete o protagonismo das mulheres rurais do estado, que desempenham papel fundamental na preservação dessa tradição e representam cerca de 30% dos projetos apresentados à Secretaria da Agricultura Familiar (SAF).
Uma pesquisa de mestrado desenvolvida pela jornalista e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Sara Almeida Campos, lança luz sobre o protagonismo feminino na história da cajuína. O estudo, intitulado "Quê que há?: Visibilidade de Mulheres na Feitura de Cajuína Artesanal em Valença do Piauí", resgata as trajetórias de mulheres valencianas e propõe um registro de memória histórica de Maria Portela Veloso, pioneira que impulsionou a rotulagem e a comercialização da bebida para estados como Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro.
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Sara Almeida Campos, pesquisadora / imagem: Pedro Silva - Sempre
Os resultados da pesquisa foram apresentados durante o Festival da Cajuína, realizado nesta quinta-feira (18), em Teresina. Na ocasião, Sara Almeida Campos compartilhou reflexões sobre a contribuição das mulheres para a preservação dessa tradição centenária, destacando o papel fundamental que elas desempenharam na consolidação da cajuína como um dos maiores símbolos culturais do Piauí.
Ao Portal Coluna Sempre Mais, a pesquisadora explicou que a escolha por Valença do Piauí surgiu da relevância histórica que o município possui na produção da bebida.
“O que me influenciou [na pesquisa] foi Valença do Piauí, porque abriga algumas das mais importantes referências da produção de cajuína no estado. Para nós, isso é inegável. Além disso, foi em Valença que viveu Maria Portela Veloso, pioneira na rotulagem e comercialização da cajuína, ainda no início do século XX”, destacou a pesquisadora.
Um legado que atravessa gerações
A trajetória de Dona Maricas simboliza o início de uma história de emancipação e liderança que se reflete até hoje nos quintais produtivos do município. Entre os convidados que acompanharam a palestra estava Dóris Mendes, neta de Maria Portela Veloso. Emocionada, ela relembrou a importância da avó para a história da bebida e ressaltou o orgulho de ver esse legado reconhecido.
“Estou muito emocionada com esse evento. Saber que minha avó foi pioneira é motivo de muito orgulho para toda a nossa família. Foi a partir desse trabalho que a cajuína ganhou força em Valença. Hoje, a cidade é uma referência, com muitos produtores e cajuínas reconhecidas pela qualidade”, afirmou.
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Tradição que movimenta a economia
Para o secretário municipal de Agricultura de Valença do Piauí, Luciano Coelho, a pesquisa contribui para preservar uma história que continua presente na vida econômica e cultural do município.

Luciano Coelho, secretário municipal de Agricultura de Valença do Piauí / imagem: Pedro Silva - Sempre
“É um evento de grande relevância para Valença. Estamos falando de uma pesquisa desenvolvida por uma estudiosa de Brasília sobre um produto que faz parte da nossa identidade. Quando ela aborda o papel das mulheres na produção da cajuína, ajuda a resgatar uma história que está profundamente enraizada na nossa cultura e também na nossa economia”, destacou.
A professora e vereadora Edna Quaresma também ressaltou a importância da iniciativa para o município. “É um evento muito importante, especialmente para Valença. Temos produtores e representantes da cidade participando e a pesquisa da Sara evidencia a relevância da nossa cajuína. É um reconhecimento que fortalece ainda mais a história do município”, comentou.
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Edna Quaresma, professora e vereadora / imagem: Pedro Silva - Sempre Mais
Tradição preservada há mais de cinco décadas
Entre os participantes do festival esteve a tradicional Cajuína Dona Júlia, uma das referências da produção artesanal da bebida em Valença do Piauí. Há mais de 50 anos no mercado, a marca mantém processos que atravessam gerações e preservam características que ajudaram a consolidar a reputação da cajuína valenciana.
Segundo Maria José, representante da empresa, a tradição continua sendo um dos principais diferenciais da produção.
“A fabricação acontece em Valença e o mais bonito é que a pessoa responsável pela primeira cajuína da marca ainda participa da produção, especialmente das etapas mais delicadas. Isso ajuda a preservar a qualidade e a tradição que fazem da nossa cajuína uma das mais reconhecidas do Piauí”, destacou.
O cuidado por trás de cada garrafa
A produção da cajuína exige técnica, paciência e conhecimento tradicional. O processo começa com a extração do suco do caju, seguido pela clarificação, etapa responsável por retirar substâncias que deixam a bebida adstringente. Depois de filtrado, o líquido é engarrafado e levado ao banho-maria, onde os açúcares naturais se caramelizam lentamente, conferindo à bebida sua característica coloração âmbar, sabor suave e longa durabilidade.
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Valorização e novos mercados
O Festival da Cajuína também contou com a participação do programa Made In Piauí, iniciativa da Investe Piauí voltada ao fortalecimento e à promoção dos produtos piauienses.
Durante o evento, empreendedores receberam orientações sobre comercialização, cadastramento e acesso às oportunidades oferecidas pela plataforma. Para o coordenador do programa, Gustavo Dias, o festival desempenha um papel fundamental na valorização da produção local.
Gustavo Dias, coordenador do Made in Piauí / imagem: divulgação
“É uma oportunidade para apresentar ao público a diversidade de produtos do nosso estado. Temos produtores de cajuína, castanha, mel e diversos outros itens que representam a riqueza econômica e cultural do Piauí”, afirmou.
Segundo ele, o festival já se consolidou como um dos principais eventos do calendário cultural piauiense. “A cajuína é um patrimônio do nosso estado. Ela representa a nossa história, a nossa gastronomia e a identidade do povo piauiense. Valorizar essa tradição é também fortalecer aquilo que nos torna únicos”, concluiu.



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