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Sopro de Ideias

Cinema escrito à lápis

“Sopro de Ideias” é um espaço que, a partir de experiências pessoais e acadêmicas, valoriza a escrita como ferramenta de pensamento, escuta e construção crítica

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 'As Sufragistas', o longa mistura personagens reais e fictícios / imagem: reprodução

Existe um cinema feito para e por mulheres? O cinema é um hábito cultural, instrumento de ensino de História e uma linguagem que circula no mundo como diversão, informação e patrimônio cultural considerado a sétima arte. Mas, começo uma resposta dada por Clarice Lispector, quando escreveu quase 450 (quatrocentos e cinquenta) textos para uma coluna chamada: “Só para Mulheres”, durante os anos de 1960. Ela como jornalista, se apropriou da crítica de George Bernard Shaw (Irlandês inconformista, dramaturgo, jornalista, etc. e principalmente crítico literário) forneceu a inspiração para a condenar a “beleza de catálogo” imposta para as condições das mulheres de seu tempo. Uma Clarice jornalista que escreveu até sua morte em 1977, que moveu uma escrita profunda sobre o universo dos dilemas humanos em sua obra.

A unanimidade que Clarice Lispector inspira até hoje pode ser aliada a uma perspectiva atual da teoria feminista, que por isso, como leitora de Clarice usei a autora bell hooks (2024) em uma reflexão proposta para a Universidade do Estado do Piauí (UESPI). Neste uso do cinema como prática pedagógica feminista fiz sobre temática das mulheres fora do modelo da “beleza de catálogo” a atividade na UESPI visa mostrar um cinema como linguagem afetiva ao público, com respeito da igualdade de gênero e valorização da história das mulheres no contemporâneo.

Apresento na UESPI um CINEMulheres: Cinema de valorização das Mulheres, tendo elas como protagonistas dos filmes e como cineastas. Dias 25 e 26 de novembro na UESPI, produzo um minicurso para debater e refletir sobre a curadoria de dois filmes, em especial, a exibição de: “As sufragistas” e “Manas”, quando os estudantes prepararam ao longo do segundo semestre de 2025 uma produção de textos tais como: sinopses, resumos e comentários a respeito das produtoras e artistas dos filmes. Repriso, que foram os estudantes do CINEMulheres da UESPI eu produziram essa etapa do minicurso.

A linguagem audiovisual do cinema abre caminhos na consciência e de transformação da cultura aos olhos, e é no cinema que há a magia de oferecer muito mais do que a vida provoca. O cinema faz imaginar uma vida além da própria vida, o que possibilita imaginar futuros possíveis provocando mudanças e reflexões por meio de que vale reimaginar na tela e na cultura que conhecemos de forma íntima a nossa vida cultural (bell hooks, 2024).

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Do cinema de bell hooks para o esforço de Clarice Lispector ao escrever, muitas vezes a lápis, suas crônicas e contos sobre o repressor cotidiano das mulheres de seu tempo (1950 e 1960) que ainda são atuais, afinal a considerada “beleza padrão e de catálogo” (leia-se branca, jovem, magra e cabelo lisos, loiro.) e “o tipo feminino padrão” é um lugar de disputa sobre quais comportamentos as mulheres devem seguir e reproduzir neste mundo contemporâneo.

Mulheres atuantes na esfera pública e na política são punidas com as violências de gênero, mulheres são alvo de feminicídio e violências em seus corpos, cotidianamente. Os números destas violências de gênero e contra as mulheres estão disponíveis em um clique nos sites de busca. Nesta coluna, desejo alertar a dívida em atender a Lei nº 14.986, de 25 de setembro de 2024. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para incluir a obrigatoriedade de abordagens fundamentadas nas experiências e nas perspectivas femininas nos conteúdos curriculares do ensino fundamental e médio; e institui a Semana de valorização de mulheres que fizeram História no âmbito educacional.

Jamilli Correa, no filme brasileiro "Manas" / imagem: reprodução

E, essa perspectiva da lei supracitada, diz sobre os eventos fundadores da modernidade e da ciência moderna e de um direito pautados na objetificação e exploração dos corpos femininos, marcados pela pobreza como exploração sexual e a racialização das mulheres, preconceitos sociais que excluem as mulheres de uma vida satisfatória e sem violências. Isso justifica uma curadoria na universidade (UESPI) sobre a escolha destes filmes a respeito dessa demanda social urgente.

Por isso, na UESPI tem prevista em 2026, ações durante a semana de 8 de março de 2026 e na semana da consciência negra, em dia 20 de novembro de 2026, quando raça, classe social e gênero são marcadores sociais que andam juntos nas estruturas das diversas violências reais e simbólicas contra as mulheres neste nosso século XXI.

Sopro de Ideias

O espaço Sopro de Ideias, assinado pela profª pós Doc. Yomara Caetano, propõe um diálogo entre subjetividade e objetividade, convidando à reflexão sobre temas que atravessam o cotidiano acadêmico, cultural e social. Mais do que discutir metodologias e conteúdos científicos, o espaço aborda comportamentos, relações humanas e os impactos das tecnologias na forma como produzimos conhecimento. Ao integrar memória, sensibilidade e análise, Sopro de Ideias se apresenta como um convite à construção de um pensamento mais atento ao tempo, à escuta e à ética, especialmente no contexto da formação de pesquisadores e do ensino de História.

Conteúdo assinado por Yomara Caetano

Graduada em Direito e História, leio mulheres intelectuais, estudo a linguagem cinematográfica e realizo uma formação em psicanálise. Doutora em História (UDESC). Sou professora na Universidade do Estado do Piauí (UESPI). Meu interesse é aproximar os saberes produzidos na universidade da comunidade onde essa instituição vive, e vice-versa, e isso é chamado de divulgação científica. Textos ensaísticos.

Dedico essa Coluna ao Heitor, filho amado, integrante da geração Alfa.

Contatos

Universidade do Estado do Piauí - UESPI

E-mail: yomaraoliveira@ors.uespi.br

Referências

BRASIL. Lei nº 14.986, de 25 de setembro de 2024. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para incluir a obrigatoriedade de abordagens fundamentadas nas experiências e nas perspectivas femininas nos conteúdos curriculares do ensino fundamental e médio; e institui a Semana de Valorização de Mulheres que Fizeram História no âmbito das escolas de educação básica do País. Brasília: DOU, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14986.htm. Acesso em: 27 set. 2025.

HOOKS, Bell. Cinema vivo: raça, classe e sexo nas telas. Tradução de Natália Engler. SP: Elefante, 2023.

Filme, Manas, Drama, 1h40 m, 2025

Filme, As sufragistas, Drama, 1h 30m, 2015.

LISPECTOR, Clarice. Só para mulheres: conselhos, receitas e segredos. Clarice Lispector; [Organização da Aparecida Maria Nunes]. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. 4ª ed. São Paulo: Contexto, 2009.

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